Punch-Out!! – A Luva Branca da Nintendo.

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Era uma vez um mundo encantado, onde o sol brilhava, todos eram felizes, e as Arcadas exerciam o controlo hegemónico do mercado do entretenimento digital. Nessa época, marcada por renovações de fé nas bases conceptuais dos videojogos, surgiram inúmeras lendas; cavaleiros amedrontados, canalizadores que esmagavam pequenas tartarugas e figuras geométricas com tendências suicidas. Ora, nesse prato de verdura fresca e saudável, estava uma beterraba rebelde. Talvez por mostrar um espectro de cor mais berrante, ou simplesmente por ser diferente, Punch-Out!! ganhou o coração dos adeptos do jogo imediato, da moeda fácil e reflexos rápidos. A meio da década de 80, a Nintendo havia imaginado uma versão ficcional dum desporto de combate, deixando adivinhar um caminho, uma ideologia vincada que levaria a empresa ao estatuto de fazedora de sonhos. A simplicidade da obra serviu de eco; um aviso à navegação. A indústria entendeu que qualquer conceito, por mais arcaico e primário, pode ser aproveitado numa experiência divertida e aditiva. Depois de várias entradas no catálogo da NES e Super Nintendo, Punch-Out!! renasce na Wii, com nova pintura, mas embebido no mesmo espírito vencedor. A premissa para esta análise está, portanto, identificada – poderá Punch-Out!! satisfazer os sonhadores do antigamente, enquanto enfeitiça os novos candidatos ao título?

Punch-Out!! tenta captar a atenção dos entusiastas da obra original, é certo, mas o público da Wii é demasiadamente diversificado. A Nintendo teria de cozinhar a fórmula perfeita; um equilíbrio inteligente e apelativo para os que frequentam a escola primária, donas de casa desesperadas e adeptos de ocasião. Para o efeito, a gigante de Quioto entregou o processo de desenvolvimento de Punch-Out!! aos criativos da Next Level Games (Mario Strikers Charged Football, Spider-Man: Friend or Foe), esperando um disco final entupido com ondas de nostalgia e apelo renovado. O estúdio canadiano emprestou esforço e dedicação à obra original da Nintendo, imaginando uma proposta ironicamente conservadora. Enquanto dissecava Punch-Out!!, fiquei espantado com a segurança concepcional em montra; as valias interactivas do Wii Remote e Nunchuk ficam para segundo plano. Depois do sucesso colossal de Wii Sports, que catapultou a Wii até muitas salas de estar, esperava algo fresco; uma nova interpretação dum clássico intemporal que ecoasse a inovação base da Wii. Nada disso. A Next Level Games alegrou os críticos da caixa branca da Nintendo, aqueles que louvam a empresa de Iwata pela adaptação dos estúdios internos à tecnologia livre do Wii Remote, mas não reconhecem qualidade aos criativos externos que tentam desenvolver ideias nessa base. Para o registo – pura demagogia, claro. No caso, Punch-Out!! apresenta uma experiência tristonha ao comando dos citados acessórios. Ao invés de promover o movimento corporal do jogador, como acontecia na proposta de boxe de Wii Sports, Punch-Out!! convida o atleta digital a executar socos no ar, emulados no ecrã, enquanto se esquiva das investidas do adversário, recorrendo ao botão analógico do Nunchuk. Como Punch-Out!! é um título que estimula o raciocínio rápido e reflexos do utilizador, toda a mecânica de defesa e ataque acaba por sofrer bastante. Pior, ao comando do Wii Remote e Nunchuk, o combate não é intuitivo nem imediato. Mas não desespere, caro leitor. Punch-Out!! é louvado pela essência simples, mas exigente e aditiva. Ora, todas essas qualidades foram excelentemente traduzidas pela equipa da Next Level Games, através doutra opção de controlo – o Wii Remote disposto horizontalmente. Dessa forma, recorrendo a apenas quatro botões, toda a glória de Punch-Out!! (reminiscente da pérola da NES) é apresentada sobre nova luz.
Note ainda que Punch-Out!! suporta a Wii Balance Board, de Wii Fit, mas, à data da elaboração deste texto, não tive oportunidade de testar as proezas do título com esse acessório. É pena, pois é…

Se foi um dos hereges que preferiu ignorar os méritos de Punch-Out!!, saiba que a série vale, sobretudo, pelas personagens lendárias. Seguimos a demanda de Little Mac, um lutador adolescente com talento e personalidade de sobra, que sonha com o título mundial. Para atingir esse feito, Little Mac terá de derrotar uma colecção de combatentes… originais. O elenco de Punch-Out!! é tão louco como divertido; o cartaz apresenta lutadores clássicos na história da série, como Bald Bull, Glass Joe e King Hippo. Disco Kid, um boxeador extrovertido e confiante, é a única novidade no painel de ilustres de Punch-Out!!. Para o registo, a Nintendo fez questão de oferecer combates lendários aos adeptos do passado da série, enquanto renova o espírito divertido e único das personagens em competição. Todos os lutadores gritam personalidade e comédia suficientes para convencer até os convidados mais alheios à festa. Fiquei encantado com a animação fluída e natural dos atletas de ocasião; as expressões faciais, o movimento corporal e os modelos coloridos dão vida à obra. Mais, a técnica cel-shade aplicada no esboço conceptual de Punch-Out!! realça a alma descontraída do título, aplicando um filtro de inegável qualidade técnica e artística. A pequena caixa branca da Nintendo supõe alguma escassez de texturas ricas em gordura digital; aquela que empresta um falso sabor de satisfação aos projectos pobres em ideias. No caso, pode descansar a vista – Punch-Out!! é um regalo visual sobre qualquer critério de análise, mesmo sem a bengala da alta-definição.

Von Kaiser não gosta de verde...

Von Kaiser não gosta de luvas verdes...

O pacote sonoro de Punch-Out!! é igualmente competente e divertido. Além do tema principal da obra, que toca em momentos chave da aventura de Little Mac, adorei o detalhe do trabalho de voz que acompanha todos os adversários em cartaz. Saiba que as personagens falam no seu próprio idioma, emprestando credibilidade a cada batalha. Por exemplo, o espanhol Don Flamenco assume a pose de verdadeiro garanhão latino, afirmando que seduz todas “las chicas”. Apropriado. Felizmente, esta devoção sonora da Next Level Games não desconcentra o jogador durante o combate. Na pior situação, o boxeador digital ficará agitado (ou enervado) com os comentários provocantes dos oponentes. Mesmo sem dominar a língua russa… ou um qualquer dialecto indiano.

Grande parte dos entusiastas digitais, que esbateram os botões do comando da NES para dominar Mike Tyson’s Punch-Out!!, ainda louvam a mecânica simplista (mas exigente) do título de 1987. Para contentamento geral, a Next Level Games construiu Punch-Out!! recorrendo à premissa da série como guia criativo. Ainda bem. O renascimento de Punch-Out!! na Wii é um tributo, uma carta de amor aos guerreiros pacientes de sempre; quem esperava uma extensão literal dos cartuchos lendários ficará eufórico. A estrutura desta edição é tão linear como flexível. Quem preferir desfrutar da obra sem companhia, recorrerá a dois modos de jogo centrais: Exhibition e Career. Na primeira opção, o jogador poderá treinar e compreender os adversários, de forma a melhorar o desempenho no modo Career. Nessa carreira de boxeador virtual, o atleta de sofá tentará guiar Little Mac até ao tão ambicionando título de campeão mundial. Saiba que a estrada até à glória é longa; terá que derrotar todos os lutadores da competição, dividida em três escalões de competência. Note também que, após a conquistar o cinto de campeão mundial, no modo Career, poderá defender a honra ao defrontar os mesmos adversários, com algumas diferenças estratégicas. Para o efeito, Punch-Out!! oferece um leque de maravilhas conceptuais, centradas na simplicidade caracterizante da série. O segredo para vencer um combate está na paciência e reconhecimento do padrão de ataque do oponente. O momento certo para atacar depende, por norma, do ímpeto ofensivo adversário; a luta torna-se num jogo do gato e do rato, onde a destreza e precisão são a chave para a vitória. A mecânica normativa segue, quase sempre, estes passos – esperar, esquivar, atacar. Para o leitor mais fanático pelos combates entupidos com raiva e esmagamento de botões, Punch-Out!! será uma poça de infortúnio e frustração; prevejo rios de lágrimas e derrotas sucessivas. Little Mac pode atacar com o gancho esquerdo e direito (Botões 1 e 2 respectivamente, se utilizar o Wii Remote disposto horizontalmente) e recorrer ao botão A para lançar um soco consideravelmente mais poderoso. Esse movimento devastador é moderado por um medidor de estrelas, que é preenchido sempre que o jogador atinge um adversário que apresente uma pose especifica (assinalada com um brilho dourado). Quando Little Mac absorve três estrelas, esse movimento especial, o Star Punch, pode derrubar definitivamente qualquer adversário. Prático, e visualmente brilhante. O medidor de fadiga, representado por um coração em forma de contador, adiciona mais uma camada de estratégia aos combates. No caso, Little Mac ficará fatigado quando é atingido repetidamente, ou quando falha investidas sucessivas. Para recuperar o fôlego, o boxeador de ocasião terá que esquivar os socos do oponente, até voltar à forma preferencial. Para fechar este parágrafo descritivo, saiba que poderá vencer um combate se cumprir uma das três acções para o efeito: KO, TKO (após derrubar o adversário por três vezes num round) ou por Decisão do juiz. Muito simples, certo?

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O boxeador típico de Punch-Out!!.

O trabalho da Next Level Games em Punch-Out!! é louvável. Mas, por trás do véu de competência e mérito, a obra sofre por ser dirigida ao adepto mais solitário; a vertente para dois jogadores acaba por ser infértil em ideias e quase castradora. Infelizmente, não é possível utilizar os adversários dos modos Exhibition e Career contra um oponente humano. Ao invés, a batalha fica reduzia a um cartaz deprimente – Little Mac vs. Little Mac. Salve-se a transformação exclusiva da personagem central de Punch-Out!!. O melhor dos lutadores em prova poderá transformar-se em Giga Mac, uma versão gigante e dantesca de Little Mac. A metamorfose temporária acrescenta uma pitada de interesse, visualmente atractiva, mas não esconde a ferida criativa em montra. Mais, pode esquecer qualquer tipo de suporte em rede; a Nintendo Wi-Fi Connection ficou fora do disco final. Mas Punch-Out!! nunca foi uma experiência adequada para festas ou serões com amigos. Esta interpretação do conceito clássico tentou adoptar a filosofia da Nintendo; aquele que instalou uma Wii nas agendas de muitos consumidores alheios aos videojogos. O objectivo ficou por cumprir. Felizmente, para os que sentem a falta do jogo honesto e directo do passado, o conteúdo restante espalha qualidade em cada poro. Para os outros, fica a sensação agridoce…

Punch-Out!! é um tributo aos amantes da série. A Next Level Games tentou (e conseguiu) focar o desenvolvimento da obra em pontos sensíveis e honrados – Punch-Out!! é leve, simples e incrivelmente aditivo. Qual mancha na arte em montra, a opção para dois jogadores espelha o descrédito da ideologia Wii, tão fomentada pela Nintendo. Quem esperava o sucessor espiritual de Wii Sports ficará muito desiludido. Os outros, famintos por ofertas reminiscentes doutros tempos, vibrarão com cada soco. Ao candidato a boxeador digital – mesmo cometendo pecados, Punch-Out!! cai no saco dos melhores títulos da Wii. ‘Boa luta, Little Mac!’.

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